AS MIL E UMA NOITES

Foto: Divulgação

Lembro quando tinha um pouco mais de oito anos, li um clássico da literatura árabe: As Mil e Uma Noites. Sim, com oito anos. Já vem de longe o meu gosto por literatura. Li a obra de uma penada só. Ao contrário dos que me atacam, cedo já tinha os livros como companheiro, já os que detratam, muito provavelmente nunca leram nada. Mas deixa prá lá, não é isto que vou abordar hoje. Vou falar de outro que festeja os mil dias, quando na verdade são mil noites escuras e longas, justamente o contrário do livro que mencionei no título.

O Bolsonaro resolveu encampar uma onda de festejos para celebrar os seus mil dias à frente da presidência da república. Analisando friamente o seu governo, pode-se afirmar sem sombra de dúvida: é o pior que passou pela presidência desde Deodoro. Tenho feito pesquisas acerca do histórico do STF desde a sua criação ainda no longínquo ano de 1891, quando foi dada novas atribuições à corte máxima com o advento da constituição do mesmo ano, para um futuro livro. Nestes estudos, por certo, tem em paralelo a atuação dos presidentes da república ao longo do século XX até os dias de hoje. Afirmo, sem sombra de dúvidas: Nada se compara a ruindade da era Bolsonaro. E olha que tivemos, nestes pouco mais de cem, duas ditaduras: a de Getúlio Vargas e dos militares de 64.

Para comemorar seus mil dias, divulgaram que seria com a inauguração de obras. A primeira inauguração seria os dez quilômetros, isso mesmo, dez quilômetros de uma estrada aqui na Bahia. Mais paroquial impossível. Deve inaugurar um poço artesiano aqui, uma viela ali e por aí vai. Como não fez nada substancial nestes quase três anos, resta fazer estes atos típicos de um vereador em fim de mandato.

No entanto, os desastres de sua gestão são inúmeros. Enumerá-los seriam necessárias horas para apontá-las. E não precisa ir muito longe. Vou trazer algumas que são bem ilustrativas. Os puxa sacos não podem negar. São fatos por mais conhecidos. Vamos a eles.

- Facilitar o uso e porte de armas através de decretos. Numa tentativa de impor uma pauta desnecessária, apenas para atender a sua grei, decidiu o Bolsonaro através da emissão de decretos regulamentar a lei do porte de armas que caminha a passo largos serem a decretação de sua inconstitucionalidade pelo STF. O caminho jurídico escolhido por ele está errado. Mas o discurso já está pronto: vai dizer que o judiciário o persegue.

- Defender o uso de remédios sabidamente ineficazes no combate ao covid 19. O seu negacionismo torpe e irresponsável demonstra a que grau de delinquência chegou a sua gestão no combate à pandemia. O resultado: 600 mil mortes. O ridículo foi sua defesa na ONU na última assembleia geral realizada na semana passada. A consequência de sua delinquência foi ser alvo da zombaria mundial em razão de sua obtusidade de insistir em medicamentos que a universalidade das pessoas sabe que não funciona para o vírus pandêmico. O isolamento internacional é evidente. Só troncho acredita em cloroquina e assemelhados.

Ainda na sandice de defender tais medicamentos, o Brasil, foi o único país do mundo, vou repetir, o único país do mundo a adotar o “kit anti-covid” como solução a covid 19.

- Alinhamento ao trumpismo e aos próceres do extremismo internacional bocó sob o manto de um conservadorismo de botequim. Uma vez que ele não sabe nem o que é ser conservador e nem o que significa ser de direita. Tal postura somente acelerou o isolamento diplomático do Brasil. Nenhum chefe de estado de países importantes quer aproximação com Bolsonaro.

- O mais grave de todas as ações de Bolsonaro nesta escuridão das mil e uma noites: a ideia fixa de golpe. Desde a posse lá em janeiro de 2019, não teve um só dia que não se desejasse uma disruptura das instituições de poder, no caso o Legislativo e Judiciário que não fosse alvo de deslegitimar suas representatividades. Para isto basta lembrar que em maio de 2019 o Bolsonaro acompanhou e incentivou passeatas que pediam fechamento do STF, a volta do AI-5 e que tais. Tentou sem sucesso, no último 07 de setembro emparedar os demais poderes. Não conseguiu. O apoio das forças armadas e de alguns prosélitos não  aconteceu e não embarcaram na sua onda. Teve que recuar. Fez até uma cartinha para tentar limpar a sua barra.

No livro As mil e uma noites para não morrer nas mãos do rei Xariar, Xerazade resolve a cada noite contar uma história diferente até o nascer do dia, deixando o seu desfecho para a noite seguinte. Ela assim fazia porque o rei que fora traído por sua antiga esposa não confiava mais nas mulheres. Revoltado o rei passa cada noite com uma mulher e a mata no dia seguinte e assim evita a traição. Xerazade para não morrer nas mãos do rei após uma noite com ele, encontrou um jeito de não ser assassinada. Passou ela a contar uma história a cada noite, com o desfecho na noite seguinte, afinal o rei queria sempre saber o fim de cada narrativa e assim, por via de consequência, ela adiava a sua morte.

As mil noites do governo Bolsonaro são de penumbra. Ele a cada dia e noite somente nos brinda conta histórias horrorosas e fim sempre previsível, retrato fiel de seu desgoverno. Xerazade no livro se casa em definitivo com o rei. A nós somente nos resta a saída definitiva do presidente e que se dará nas eleições do ano que vem. Falta pouco

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