Entenda o processo de doação de órgãos; Em Feira, 680 pessoas aguardam transplante de rim

A principal causa de negativa familiar para a doação de órgãos é por desconhecimento da vontade do falecido, seguido das dúvidas sobre o procedimento, além de questões referentes a religiosidade.

Foto: Divulgação

Dizer ‘sim’ após a perda de um ente querido pode ser doloroso, mas também pode mudar a vida de milhares de pessoas que esperam por um transplante.

A campanha Setembro Verde, realizada ao longo deste mês, tem o intuito de sensibilizar a população para a doação de órgãos e tecidos. Para ser um potencial doador, não é necessário deixar algo por escrito. Porém, é fundamental comunicar à família sobre o desejo da doação.

Ao Bom Dia Feira, a enfermeira da Organização de Procura de Órgãos (OPO), Aline Lima, que atua no Hospital Geral Cleriston Andrade, destacou que o maior desafio na captação de doadores de órgãos é fazer com que as pessoas conheçam o processo de doação e da morte encefálica, quando o cérebro perde as funções e, por medicação, é possível manter o funcionamento de alguns órgãos durante um tempo limitado.

‘Durante o ano inteiro a gente tenta fazer a educação permanente para levar essas informações para a comunidade, tanto dentro do hospital, como fora dele, em toda a regional de Feira, o que tivemos que parar um pouco por causa da pandemia’, diz.

Pesquisas mostram, conforme ressalta Amanda, que a principal causa de negativa familiar para a doação de órgãos é por desconhecimento da vontade do falecido, seguido das dúvidas sobre o procedimento, além de questões referentes a religiosidade.

‘Nós temos o protocolo de morte encefálica, que é regido pela resolução do Conselho Federal de Medicina e precisamos obedecer a todas as etapas do protocolo. As pessoas geralmente não sabem se o familiar queria ou não ser doador, é algo muito recorrente e, por isso, a nossa campanha enfatiza que não basta querer, precisa falar. Além disso, há a questão das dúvidas, já que a morte encefálica não é usual e em relação a religião, o que nós abordamos de forma tranquila porque já sabemos que nenhuma religião é contra’, diz.

De acordo com a enfermeira, o protocolo é feito a partir de dois exames clínicos e um complementar, como o eletroencefalograma.

‘Assim que o neurologista constata pouca inviabilidade cerebral, o paciente é deixado sem sedativos ou outros medicamentos que mascarem o sistema neurológico e passa a ser observado, dependendo do tempo de vida desta droga, e a gente passa a seguir o protocolo. Quando o diagnóstico médico é dato e fechamos o protocolo, iniciamos o acolhimento familiar, esclarecimento de dúvidas e conversas com as pessoas. A morte encefálica é sempre de caráter irreversível e a gente só consegue olhar nos olhos de alguém para informar quando estamos cercados de todas os exames’, explica.

No Brasil, uma vida pode salvar outras oito vidas através da doação de órgãos. Segundo Amanda, à princípio, todos os óbitos são considerados elegíveis para doação, com algumas contraindicações absolutas como Covid, assepsia, aumento progressivo de drogas, hepatites, neoplasias malignas ou não controle de algumas bactérias.

‘Na Bahia, costumamos captar rins, fígado, córnea e coração para válvulas. A gente fala que estamos ressignificando o momento de dor e luta em um momento de generosidade a amor que, na minha prática, conforta muito os enlutados, porque a doação tem que trazer acalento e amor para todos os lados, tanto para as famílias dos transplantados, como para quem está precisando de um conforto no momento’, pontua.

Em Feira de Santana, cerca de 680 pessoas aguardam especificamente pelo transplante de rim. Em 2019, foram nove realizadas no HGCA. Em 2020, foram oito. Já neste ano, somente três. A pandemia, acredita a enfermeira, contribui para a redução no número.

‘A gente vinha em um crescente importante em 2019, chegamos a ter quatro doações por mês na cidade, mas veio a pandemia, o susto, a readequação, e baixou, agora que estamos retomando, as pessoas estão mais vacinadas, estão se sentindo mais seguras e o os familiares podem ir ao hospital receber as notícias, participar do processo, o que os deixa mais seguro’, diz.

Na outra ponta do processo estão os transplantados. A escolha dos indivíduos beneficiados com os órgãos ocorre a partir da escolha dos indivíduos listados em um ranking que é formado pelo Sistema Nacional de Transplantes e alimentado pelas equipes transplantadores, de acordo com exames realizados periodicamente.

‘Essa fila tem prioridades por afinidade, gravidade e idade. A afinidade começa com peso, altura e peso sanguíneo, e depois ela chega até o momento de memória imunológica, através de um exame virtual que simula o transplante. Em média, temos uma logística montada para no máximo 24h, e o tempo de vida dos órgãos sólidos é curto e vai entre 4h e 48h. Não é possível escolher o receptor e a legislação não permite que o receptor saiba quem é o doador’, destaca.


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