MENTIROSO OU PUXA SACO

Foto: Divulgação

Uma das coisas que mais me irrita é a divulgação de noticia falsa ou pessoa desqualificada emitir opinião sobre aquilo que não sabe. Em tempos pandêmicos o que mais ouvimos, lemos assistimos é uma revoada de gente propalando um festival de fake News, a soldo de uma ignorância ou então para mostrar o mais deslavado puxa-saquismo para reverenciar uma competência de alguém que não tem.

 

Está sendo propalado pela imprensa que o presidente Bolsonaro vai visitar a cidade de Chapecó no interior de Santa Catarina. A visita presidencial é motivada, segundo o presidente da república, como município exemplar no combate a covid, inclusive porque lá faz uso do kit feitiçaria daquelas substâncias que o mundo inteiro não adota. Segundo o intrépido prefeito desta bela cidade catarinense, lá reduziu os casos de covid de mortes. Bem, como sou inquieto, resolvi verificar os números oficias de combate a pandemia desta aprazível cidade.

 

Vamos lá. Os números que vou apontar são os fornecidos pela prefeitura de Chapecó. O prefeito diz que reduziu as mortes diárias por covid de 18 para duas ou três. Sua secretaria de saúde aponta que houve um total de 127 mortes até 4 de janeiro e no dia 4 de abril esse número de mortes passou para 536, ou seja, quase 4 vezes mais num espaço de pouco mais de três meses, um total de 409 pessoas morreram.  Diz o incrível prefeito que a cidade só tem “algum número” de internados em UTI por covid, nas palavras dele mesmo. No último domingo, ou seja, dia 04 de abril havia 130 internados que corresponde a 97% dos leitos de UTI ocupados e no dia 04 de janeiro havia 38 internados.

 

Defensor do kit curandeirismo, naquela tríade de medicamentos que só idiota acredita que previne e cura a covid, o prefeito de Chapecó distribuiu como tábua de salvação, portanto não se deve levar em consideração. Apenas para ilustrar, a prefeitura distribuiu 20.471 comprimidos de ivermectina e 78 mil de azitromicina, e ninguém sabe o resultado disto. . A cidade de Chapecó tem a taxa de 238,8 mortes por grupo de 100 mil pessoas, enquanto a taxa do Brasil é de 158,3 e a do estado de Santa Catarina de 158,1 por grupo de cem mil habitantes. Esta é a cidade que o presidente da república vai visitar sob a alegação de que ela a que melhor representa o combate ao vírus pandêmico. Os números por si só explicam que não é bem assim o seu sucesso que tenta passar.

 

Outro mantra repetido por patetas é sobre a decisão escalafobética e esquisita do Ministro Kássio Nunes sobre a abertura dos templos religiosos sob o argumento relinchante de que a manutenção do fechamento destas igrejas estaria impedindo as pessoas de professarem a sua fé em desacordo com o texto constitucional. É uma pena que tem gente analfabeta passando por sábio das letras e não compreende o texto constitucional. Volto agora a explicar que a decisão do ministro é tão equivocada que hoje com certeza será derrubada no plenário da corte.

 

Primeiro que ao proibir a abertura dos templos religiosos para conter a propagação do vírus da Covid 19 é antes de mais nada uma medida sanitária. Evita-se aglomeração. Na decisão do fim de semana do ministro do STF ele descreveu os cuidados a serem tomados. Só tem um detalhe. Quem iria fiscalizar a enormidade de igrejas, templos e centros religiosos pelo Brasil afora? No domingo circulou uma foto de uma igreja apinhada de gente.

 

O fechamento destes templos não está na contramão do que preceitua o texto constitucional. Diz lá no seu artigo 5º, inciso VI: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias” Fechar os templos religiosos em razão de uma pandemia para se evitar a transmissão em razão da aglomeração, não se está impedindo ninguém de professar a sua fé. Quem defende o contrário é ruim da cabeça ou age de má-fé. E existe um aspecto que já abordei que o caput do artigo estabelece que compete ao Estado a preservação da vida como elemento básico a ser respeitado. Se o próprio Estado permite a abertura das igrejas, ainda que com medidas de segurança e higiene em casos de pandemia, este princípio estaria desrespeitado. Mas tem mané que não sabe o que isto significa. E olha que falo de um jornalista experimentado.

 

As pessoas podem continuar a ir aos atos religiosos através dos meios digitais, que com certeza surte o mesmo efeito se estivesse presente numa igreja. Como já disse, a decisão do ministro Kássio Nunes não se sustenta. Ao que parece, aquela estrovenga vai ser derrubada pelo pleno do STF. Do ponto de vista processual não tem como ir adiante. É um festival de como não se deve decidir. A despeito disto tudo, a decisão vai de encontro ao entendimento formado por unanimidade pelo corte que a compete aos estados e municípios estabelecer as regras que melhor aprouver para conter o contágio e disseminação do vírus.

 

Na qualidade de advogado, professor de Direito e comentarista neste espaço, tenho a obrigação de passar informações corretas sem trazer preferências políticas, afinal o meu compromisso é com os fatos e não ficar dourando a pílula, defender o indefensável e não ficar omitindo e mentido sobre fatos que podem ser facilmente comprovados o seu verdadeiro teor. 

Compartilhe

Deixe seu comentário