FOLCLORE: SANTO ADORADO E MALTRATADO

Foto: Divulgação

O luso canonizado é o santo detentor da maior historiografia, seja como achador de coisas perdidas (desbancando São Longuinho), seja como santo casamenteiro, o que lhe rendeu culto ímpar em Portugal, no Brasil e nas ex-colônias lusitanas.

Por isso, é natural que não sendo o padroeiro da cidade, esteja ele nos altares de todas as igrejas católicas.

Em outros comentários, falei sobre o processo de Água Fria onde o Santo foi condenado e despojado de seus bens por juiz esperto, além das promoções nos exércitos de Portugal e do Brasil em campanhas vitoriosas, chegando à patente de coronel, com direito a soldo regular e a guardião.

Nesta croniqueta, vamos tratar de seus percalços como santo casamenteiro, e de como era compelido a atender às súplicas das jovens.

Bons tempos aqueles nos quais os noivos (não digo os maridos, pois a situação não deve ter mudado) tinham tanto valor!

Câmara Cascudo registrou em seu Dicionário do Folclore Brasileiro alguns costumes do nordeste, que ainda ocorriam até bem pouco tempo. 

Quando as simples promessas de conseguir um noivo não davam   resultado, as jovens submetiam as imagens do Santo aos mais variados 'suplícios', na expectativa de serem lembradas. O mais comum era retirar o Menino Jesus dos braços de Santo Antônio para restituí-lo somente depois de realizado o milagre; outras, viravam o santo de cabeça para baixo, ou colavam com cera uma moeda na efígie; e por fim, quando tardava o milagre, e cansadas já de tanto esperar, atavam o santo com uma corda e deixavam-no dentro de um poço.

Em certa paróquia de nosso interior, o vigário tinha disponíveis muitos 'meninos jesus de reserva', para substituir os que desapareciam dos braços do santo.

As rezas em quadrinhas eram comuns no nordeste:


'Meu Santo Antônio querido,

Eu vos peço, por quem sois,

Dai-me o primeiro marido

Que o outro arranjo depois.'

 

'Meu Santo Antônio querido,

Meu santo de carne e osso

Se tu não me dás marido

Não tiro você do poço.'


Alcancei, no sertão, o hábito de, na véspera do dia 13 de junho, as jovens enterrarem uma faca 'virgem' no tronco de uma bananeira, na esperança de que, ao amanhecer, lá estivesse o nome do futuro noivo.

Enfim, Santo Antônio era o principal motivo de alegria ou de festas das cidades do interior, sem cinema, sem tv ou rádio, sem boites, sem funks e sem paredões.

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