PAU DE COLHER - I

Foto: Divulgação

​Habituámo-nos a ouvir que nós, brasileiros, somos um povo pacífico. E muitos acreditam mesmo. Será que realmente somos?

​Se pesquisarmos a história do Brasil, ficaremos assombrados com tanta revolta, prepotência, sangue e violência entre nós. E do norte ao sul! Revolução Acreana (AC), Cabanada (PA), Bequimão e Balaiada (MA) Sedição de Juazeiro e Massacre do Caldeirão  (CE), Revolta Vermelha e Intentona (RN), Revolta de Princesa (PB), a Praieira e a Confederação do Equador (PE), o Levante dos Marimbondos (AL/CE) e, se pularmos Palmares (AL) e continuarmos descendo, chegamos na Bahia e esgotamos a paciência do leitor com o Levante dos Tupinambás, a Revolta dos Periquitos, a Conjuração Baiana, a Revolução Liberal, a Federação dos Guanais, a Revolta dos Malês, a Sabinada, a Guerra de Canudos, a Revolta de Pau de Colher, etc. Até houve um Motim da Carne Sem Osso (e farinha sem caroço), que abalou Salvador. O refrão ficou.

​Outras revoltas aconteceram nos demais estados; várias de índole republicana, mas a maioria ligada a conflitos fundiários: a luta de camponeses por um pedaço de terra, fato não ocorrido nos Estados Unidos, onde, grosso modo, ao invés da doação de sesmarias a protegidos dos reis, as leis previam a venda de terras, em leilões, com áreas limitadas (faixa de 150/300 ha).

​Não, não somos um povo pacífico..., embora tenhamos tido e temos ondas sucessivas de evangelização, com interpretações cristãs para todos os gostos.

​A digressão nos veio à mente ao lermos nos jornais, há alguns meses, que a Polícia Federal fora enviada ao município de Casa Nova, a fim de reintegrar área de terra da Codevasf ocupada por famílias de pequenos agricultores que ali produziam agricultura de subsistência.

​Lembrei-me do episódio da Fazenda Pau de Colher ocorrido na área, em 1938, a poucas léguas de distância, similar em muitos aspectos. Antes, como hoje, um conflito entre pobres criaturas que procuravam sobreviver e o detentor do domínio da terra; com o poder estatal intervindo do lado do mais forte, indiferente à fome e a miséria de milhares de adultos, velhos e crianças que somente tinham a terra como sua doadora e acolhedora, do nascimento à morte.

​Ontem, criaturas que acreditavam em um beato e na força do trabalho coletivo, e, do outro lado, uma família latifundiária (os Vianas) jogando o peso político na defesa de seu feudo e indiferente às suas consequências; hoje, trabalhadores rurais buscando o meio da vida como seus antecessores fizeram, no mesmo lugar há mais de oitenta anos; e do outro a Codevasf, rica empresa estatal, dito de 'desenvolvimento regional', reclamando reintegração de posse em momento das colheitas, quando deveria, ela própria, promover o assentamento de miseráveis, e não o despejo ou o desalojamento de suas famílias.

​Presenciei, em janeiro de 1938, em Queimadas, cidade à margem da Estrada de Ferro Salvador/Juazeiro onde morava, a passagem de um trem especial de passageiros, com seus vagões lotados de soldados da Polícia Militar.

​Disse-nos o chefe da estação depois do apito que autorizava a partida do maquinista: 'Eles vão se encontrar com as polícias do Piauí e de Pernambuco para liquidarem os caceteiros, fanáticos de um beato e que se instalaram em Casa Nova'. 

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