SANTO ANTONIO - IV

Foto: Divulgação

A devassa tramitou lenta porque a situação política e econômica da Vila apresentava-se instável, pois, se de um lado a Coroa havia instituído um imposto a todos os proprietários de terra para a reconstrução de Lisboa, destruída por um terremoto (e ainda era cobrado), por outro, os efeitos do fechamento do seminário da Ordem e o sequestro de seus bens dividia os aguafrienses. 

Finalmente, depois de longo tempo preso, foi o Santo submetido ao tribunal de júri.  Há versão de que   o taumaturgo teria sido condenado à forca; entretanto, uma análise coerente do fato e seu devido enquadramento jurídico, face o tipo penal descrito no Código Filipino, faz-nos presumir que ele tenha sido condenado à perda de todos os  bens (terras, gado, cativos e alfaias), menos ao degredo que era também previsto, mas nem sempre era estendido a todos. Também desterrar para onde? Angola, Moçambique?

Levados à hasta pública, os bens foram arrematados pelo Cel. Francisco Brito, da Vila do Espírito Santo (Inhambupe), por preço vil, em conluio com o Juiz da Terra. O pouco arrecadado foi revertido à Coroa. Durante a sua judicatura, João Dantas se fez proprietário de 62 fazendas de gado, e a sua fortuna proporcionou mais tarde a seu neto Cícero Dantas Martins, ser agraciado com o título de Barão de Jeremoabo.

A lenda se enriquece com o desfecho adequado: a imagem do Santo desapareceu do banco dos réus; a próspera vila de Água Fria perdeu seu status voltando a ser arraial, tornando-se um povoado fantasma com apenas 58 moradores.  Enquanto a povoação mantinha sua irreversível decadência, núcleos vizinhos se expandiram (Ouriçangas e Irará) no século XIX. Hoje é uma pequena cidade, sem maior importância econômica, mero distrito judiciário de Irará. 

Dois juízes que nos últimos tempos passaram pela comarca (berço de homens ilustres como Elísio Santana e sua brilhante prole, Tom Zé e Edson Barbosa), contraíram o vírus que contaminou João Dantas dos Imperiais: um deles se apropriou de valiosos bens de órfãos, outro comandou esquemão de grilagem de terras no Estado.

Maldição, ainda, dos malfeitos de duzentos anos atrás?

Quanto a Queimadas, seus moradores passaram a identificar tudo o que lhe aconteceu de mal à sua indiferença pela sorte do Santo, como a destruição da cidade e de sua igreja por uma grande enchente do rio Itapicuru; a legião de seus soldados mutilados na guerra de Canudos, as grandes secas de verão que deixavam seus moradores sem água durante meses e até o assassinato de soldados do quartel local, por Lampião, cento e trinta e tantos anos depois, em cena das mais chocantes da história do cangaço.

Houve até quem defendesse a tese de que o tal escravo fugidio não fora o homicida e, por isso, Santo Antônio fora injustiçado. Por essa razão, motivos não faltam para que aguafrienses e queimadenses purguem através dos tempos os seus pecados...

Se non è vero, è bem trovato...


Por: Roque Aras

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