SANTO ANTÔNIO DE QUEIMADAS - III

Preso, processado, condenado e despojado.

Foto: Divulgação

Como afirmei anteriormente, a tradição oral foi importante na reconstituição da saga do taumaturgo. O eminente queimadense Antônio Nonato Marques, secretário de Agricultura em vários governos desde Pinto Aleixo, por volta dos anos 40, e deputado em sucessivas legislaturas, era um incansável pesquisador do tema. Quando visitava Queimadas em seus recessos tinha sempre algo a acrescentar à lenda do Santo. Eu, pequeno intruso, curioso e devoto fervoroso, gostava de ouvi-lo ao acompanhar meu pai.

​Lembrava ele que a região fora habitada pelos tapuias que depois da resistência inicial à presença dos brancos, foram forçados a receber missão jesuítica em meados de 1500, ajudando a construir ali uma igreja em louvor a São João Batista. Depois, seu importante seminário, um dos raros da Colônia e único no seu interior. Chegou a ensinar latim e gramática.

​São Sebastião dividiu mais tarde as honrarias sacras de seu povo, por haver livrado a vila de uma peste. ​

​As boas terras de massapê integravam a imensa sesmaria de Garcia d’Ávila que, capturando e escravizando os cariris, ia desbravando a caatinga e implantando fazendas de 12 em 12 léguas o que fez até o Piauí, deixando em cada uma delas vaqueiro, um ou dois índios e algumas cabeças de gado, do rebanho trazido de Cabo Verde.  

​Embora nos idos de 1800 já não mais contasse com seu seminário, cujos padres jesuítas haviam sido expulsos do país pelo marquês de Pombal, desfrutava Água Fria de seu momento áureo, pois era pouso e passagem obrigatória de boiadas do alto sertão que demandavam os campos de São Gonçalo (entre estes, Feira).

​Denunciado à autoridade o assassínio de Queimadas e sendo atribuído o crime a um escravo fugidio (eles sempre pagavam o pato), foi aberto o processo (devassa) contra seu senhor. João Dantas dos Imperiais, o juiz da Terra, de Água Fria, ao ter conhecimento do fato despachou incontinente dois meirinhos para citar o Santo em sua capela, na longínqua Santo Antônio de Água Bela das Queimadas, abrindo o prazo para a defesa, após o que os emissários deveriam retirá-Lo do altar e transportá-Lo para a Vila a fim de ser processado pelo grave delito de não haver apresentado à autoridade o suposto homicida, seu escravo.

​Dentro de um caçuá (cesto de cipó seguro pelo arcabouço de uma cangalha), aposta no lombo de um burro (único meio de transporte de então), foi a imagem transportada para a Vila, em viagem que durou mais de uma semana, no percurso de trinta léguas (180km). Em aí chegando, foi levado para uma cela da cadeia local onde já se encontravam quatro condenados à forca. Pelo macabro mecanismo, erguido na praça principal e de frente para a masmorra, corria a fama de sua corda já ter conhecido o pescoço de mais de quatro mil indivíduos, a maioria escravos, daí a fama sinistra da Justiça de Água Fria.


Por: Roque Aras

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