Para Jean Wyllys, prisão de Temer é ameaça velada de Moro a Maia

Ex-deputado também acredita que há ligação entre a família Bolsonaro e os assassinos de Marielle Franco

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O ex-deputado federal Jean Wyllys, que cumpre há cerca de uma semana uma agenda de compromissos em Paris, concedeu entrevista exclusiva nesta quinta-feira (21), em que comentou as prisões do ex-presidente brasileiro Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco, que classificou de “cabo de guerra entre facções políticas que deram o golpe de 2016”. Wyllys falou também sobre exílio, refúgio político, planos para o futuro e o governo de Jair Bolsonaro no Brasil.

Sobre a experiência no exílio, que o querido escritor francês, o Victor Hugo, dizia que “o exílio é uma longa insônia”, Jean Wylly diz que ainda não viveu o lado mais pesado e duro do exílio. "O momento em que o luto vai chegar mesmo, a melancolia. Estou ainda no turbilhão do impacto da notícia de ter aberto mão do meu terceiro mandato. Estou no olho do furacão. O olho do furacão é calmo, mas também é o lugar mais perigoso. Estou tentando preparar as minhas estruturas internas para esse momento, tendo passado o burburinho das notícias, dessa denúncia que é preciso fazer aqui fora sobre o que está acontecendo no Brasil. Estou me preparando para essa longa insônia que Victor Hugo disse sobre o exílio", afirmou.

Em entrevista à televisão francesa, Yann Barthès, apresentador do programa Quotidien, afirmou que Willy havia se tornado o principal símbolo da oposição ao governo Bolsonaro, pelo menos no exterior.Ele concorda, embora não tenha tido essa intenção. "Quando decidi abandonar meu terceiro mandato, estava pensando na minha vida. As ameaças eram muito pesadas e tinham se estendido à minha família. Paralelo às ameaças havia uma campanha difamatória muito pesada que destruía minha reputação pública e me colocava vulnerável em quase todos os espaços públicos no Brasil. Eu vivia uma vida pela metade, isso estava impactando na minha saúde física e psíquica, então minha decisão tem a ver com a defesa da minha vida. Essa decisão teve um impacto político tão grande internacionalmente, e como eu sou responsável politicamente, eu decidi utilizar esse lugar que ocupo agora como uma trincheira. Não gosto muito das metáforas da guerra, mas vou usá-la. É uma trincheira para defender a democracia do Brasil e suas minorias. Me converti neste símbolo de oposição ao Bolsonaro, não porque quisesse em princípio, mas concordo com o Yann Barthès. De fato acabou acontecendo", declarou.

Ao dizer que Marielle Franco vai derrotar Bolsonaro, Jean quis dizer que a vereadora assassinada 'ronda como um espectro, como na peça de Shakespeare, Hamlet, ela ronda o governo fascista de Bolsonaro'. "Para mim vão ficar claras as ligações entre Bolsonaro e as milícias, as organizações criminosas de onde saíram os sicários que executaram Marielle. O Ministério Público e a imprensa têm mostrado essas relações. O presidente da República morava a alguns metros de um assassino de aluguel frio. Como é que a Inteligência brasileira, a Polícia Federal não sabiam disso?", indagou.

Dois ex-policiais foram presos dentro da investigação do assassinato de Marielle Franco e a Polícia Federal citou o ex-deputado estadual Domingos Brazão (ex-MDB) entre os suspeitos de ser um dos possíveis mandantes. Jean acredita que essa pode ser uma possibilidade, mas também uma cortina de fumaça ou um bode expiatório, uma maneira de desviar a atenção dos parlamentares ou esconder o verdadeiro mandante. "Acho curioso que, pouco depois da polícia apresentar os executores da Marielle, o delegado Giniton Lages tenha sido afastado das investigações. Ou seja, quando as investigações passam para uma segunda etapa e quando todos os indícios apontam para uma ligação estreita entre a família de Bolsonaro e os executores de Marielle, o delegado é afastado", pontuou.

Sobre a prisão do ex-presidente da República Michel Temer dentro das investigações da Lava Jato por liderar organização criminosa, segundo o juiz federal Marcelo Bretas que pediu a prisão, Wyllys acredita que esta prisão não pasas de um mero lance, de um cabo de guerra entre as facções que deram o golpe de 2016, que foram beneficiadas política e economicamente com o golpe de 2016. "A prisão de Temer e de Moreira Franco acontecem na sequência da desmoralização pública que Rodrigo Maia fez de Sérgio Moro. A resposta de Sérgio Moro foi mobilizar seus aliados na Lava Jato para ameaçar Rodrigo Maia através destas duas prisões. Na verdade, Moro faz uma ameaça velada a Rodrigo Maia. Essa foi a maneira do Sérgio Moro devolver o que Maia fez, que foi a desqualificação… Desqualificação não, porque Moro não tem nenhuma qualidade. Moro não precisa ser desqualificado, ele já é desqualificado por si mesmo. Uma pessoa que aceita ser ministro da Justiça do candidato beneficiado com a prisão do Lula, tendo ele realizado essa prisão, não tem nenhuma qualidade. Não comemoro essa prisão de Michel Temer porque ela chega tardia e não passa de mais um ato obsceno na orgia dos farsantes", considerou.


Informações do RFI

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