Saiba de onde vem e quais as conotações do ‘politicamente correto’

Termo, popular entre Trump e Bolsonaro, já foi considerado positivo e, hoje, é usado por muitos de forma pejorativa

S.MORAES REUTERS

O termo politicamente correto já teve diversos significados. Um dos primeiros registros de seu uso data de 1793, quando foi citado para falar de algo que era literalmente politicamente correto – ou seja, correto em termos de política – em uma decisão da Suprema Corte Americana. 

Depois disso, já foi usado para descrever ideologia política e para ironizar possíveis exageros entre o próprio grupo que usava o termo. Em seguida, ser politicamente correto passou a significar escolher palavras que não ofendam grupos minoritários e oprimidos, como mulheres, negros, gays e deficientes. 

Ultimamente, ganhou força o uso de “politicamente correto” como termo pejorativo. O presidente americano, Donald Trump, normalmente se defende de acusações dizendo que seus detratores querem enquadrá-lo em uma espécie de ditadura do politicamente correto. 

O novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, usa o termo recorrentemente de forma crítica. Em sua posse, em 1º de janeiro de 2019, afirmou que uma de suas metas é “livrar o país do politicamente correto”. Aos que compreendem o significado de 'respeitar o direito das pessoas de serem respeitadas', essa é uma maneira de estimular preconceitos contra gays, nordestinos, negros, mulheres, pessoas com deficiência, obesos, evangélicos, judeus, umbandista, etc, além do estímulo à continuidade de esquemas de discriminação, que por sua vez, tem a violência como consequência. 

No entanto, ao defender os surdos no discurso de posse, Michelle Bolsonaro mostra o que é ser politicamente correta, uma vez que respeitou o direito de uma minoria de se sentir incluída, e não estigmatizada.

Origens 

O termo é tão contestado que nem suas origens são claras. Quando apareceu em um registro da Suprema Corte Americana de 1793, foi usado da forma mais literal possível, segundo a Harvard Political Review. Os juízes diziam que seria mais correto, ao fazer um brinde, dizer “às pessoas dos Estados Unidos”, em vez de “aos Estados Unidos”. 

Críticos do “politicamente correto” afirmam que a concepção atual do termo tem origens no regime stalinista da União Soviética. O professor emérito de relações internacionais da Universidade de Boston, Angelo M. Codevilla, escreve, na Claremont Review of Books que o conceito começou a ser usado por comunistas, nos anos 1930, como uma lembrança de que “os interesses do partido deveriam ser tratados como uma realidade que está acima da própria realidade”. Ele explica o conceito com uma piada. Um comunista diz ao outro: “Companheiro, sua afirmação está factualmente incorreta”. Ao que o homem que falava responde: “Mas está politicamente correta”. 

Também afirma-se que a expressão passou a ser usado de forma mais disseminada nos EUA, com uso mais próximo da concepção atual, nas décadas de 1960 e 1970, emprestado de um discurso do chinês Mao Tsé-Tung, cujo título foi traduzido no país como “Sobre a forma correta de lidar com contradições entre as pessoas.” A professora de literatura do MIT Ruth Perry afirmou ao The Guardian que muitos esquerdistas começaram a usar o termo a partir daí, mas de um jeito jocoso. “O termo era usado de forma irônica, sempre chamando atenção para um possível dogmatismo.” 

De elogio a acusação

A partir daí, o termo passa a ser usado de forma mista. Além do uso jocoso, também passou a ser associado à tentativa de encorajar a adoção de palavras não ofensivas para se referir a grupos minoritários, escreve o professor de Ética Pública Clive Hamilton, da Universidade Charles Sturt.

Além de palavras a expressão estava conectada a ações, segundo o Harvard Political Review. Para os republicanos, os protestos contra a guerra nos anos 1960 eram “politicamente incorretos”. Já os democratas consideravam a luta pelos direitos civis “politicamente correta”. Entre esses liberais, o conceito estava associado a outros, como “direitos civis”, “black power” e “feminismo”. 

Mas em meados do século 20, nem direita nem esquerda eram “donas” do termo, e ser politicamente correto era considerado algo bom. Na tentativa de compreender as mudanças no termo a partir de então, o jornal The Washington Post, por exemplo, compilou diversas notícias em que a expressão aparecia, desde 1932. Mesmo nos anos 1980, há registros de pessoas usando a expressão de forma literal, para se referir a algo que, na política, estava correto.

Foi apenas nos anos 1990 que o termo passou a ser associado a sentimentos partidários, cujo uso é associado à esquerda e o desprezo, à direita. Segundo Clive Hamilton, a discussão ganhou força nas universidades, onde matérias tradicionais estavam sendo substituídas por outras, como feminismo e pós-colonialismo. Isso levou conservadores a acusar a esquerda de impor sua visão e reprimir pensamentos opostos, usando como justificativa o politicamente correto. 

Essa mensagem se espalhou para fora da academia. Teve grande apelo entre homens brancos americanos, por exemplo, que se sentiam discriminados por políticas de cotas. Além disso, eram eles os grandes alvos do discurso do “politicamente correto”, pois era a linguagem deles que estava sendo atacada.

“A mudança na conotação da ‘correção política’ foi um jeito inteligente de virar a mesa da moral. Ela autorizou a volta de alguns comportamentos opressores. Nas ruas, uma pessoa sujeita a insultos racistas ou comentários sexistas poderia ser considerada ‘politicamente correta’ [se reclamasse], ou seja, com um padrão moral excessivamente alto”, escreve Hamilton. 

Segundo o jornal inglês The Guardian, a discussão perdeu força com o 11 de setembro, substituída por uma preocupação com o terrorismo e o islamismo. Mas, no fim do governo de Barack Obama, ela voltou a ganhar força, com o crescimento, também, de movimentos como o Black Lives Matter os contrários à violência de gênero. 

Na era Trump, ganharam ainda mais relevância, o que tem reflexo global. Hoje, acusar alguém de politicamente correto, para alguns setores, é uma espécie de “jiu jitsu linguístico” para desarmar o argumento do opositor, segundo o professor de política da Universidade de Michigan Vicent Hutchings. “É um caso em que palavras são armas no discurso político”, disse à rede NPR.

Informações do Nexo Jornal e Catraca Livre

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