LUTA COTIDIANA

Durante o dia, Carlos tinha aula. Foi a pé até o ponto de ônibus, como muitas pessoas num dia qualquer de faculdade, se sentou e esperou, esperou, e esperou – um típico dia de quem resolveu dormir um pouco mais, e perdeu o primeiro do dia.

Núcleo de Segurança e Defesa Patrimonial da UFPE

Durante o dia, Carlos tinha aula. Foi a pé até o ponto de ônibus, como muitas pessoas num dia qualquer de faculdade, se sentou e esperou, esperou, e esperou – um típico dia de quem resolveu dormir um pouco mais, e perdeu o primeiro do dia. Esperou até a condução chegar, aquela que o deixa a pouco menos de dois quilômetros da faculdade. Nada muito distante, uma caminhadinha leve que Carlos considerava um bom exercício matinal. Carlos estudou, como de praxe. No intervalo entre as aulas, falou com seus amigos sobre a vitória do seu time do coração, dos novos jogos da Rockstar, do espetinho mal passado que comeu no sábado, que quase deu piriri, chicotinho – ou seja lá como você apelide dor de barriga. Falou sobre a música nova do Arctic Monkeys, das antigas do Guns, e deixou escapar uns versos de um pagodão que ele aprendeu por osmose no caminho. Talvez uma música do Leo Santana, do Parangolé, da La Fúria, ou de outra banda que ele não escuta – não por vontade – mas sempre sabe cantar um refrãozinho ou outro. Como todo mundo sabe, ou finge não saber. Isso durante o intervalo, até voltar pra sala, esperar o horário bater, e correr para o ponto, de novo. Correndo para não se atrasar, ele chegou a tempo. Pegou o ônibus certinho, deu bom dia (não tinha almoçado ainda) a Thiago, o seu amigo motorista, que de prontidão respondeu: “a paz do senhor, meu filho.”. Usou o passe, com aquele precinho de estudante, e falou com Ruth, a sempre sorridente cobradora. Depois dos sorrisos, Carlos encontra um lugar, senta-se, põe a mochila no colo, retira um livro. Um de crônicas, talvez um drama, thriller policial ou seria um romance? Não sei. Sei que Carlos seguiu lendo, até Ruth o alertar que o ponto dele já era o próximo. Carlos agradeceu, sorriu para a sempre sorridente cobradora Ruth, e desceu do ônibus. Carlos colocou a nova do Arctic pra tocar, era um hit que não lhe saía da cabeça, e ele também não fazia questão de tirar. Assim ele seguiu caminhando. Por mais três quilômetros, na rota do estágio. Entre os cumprimentos e saudações, a fome apertou, ele foi à copa comer. Era frango grelhado com arroz e feijão, o prato do dia-a-dia preferido de Carlos. Com a fome, pareceu ficar mais gostoso ainda. E ele comeu. Lavou seu prato. Foi – finalmente – trabalhar. Finalmente porque ele amava isso. Ô, céus, como Carlos amava trabalhar. Ele não se importava com a quantidade de coisas para fazer: sempre queria fazer. Tudo bem, como todo trabalho, sempre aparecia um ou outro mais chatinho pra fazer. Mas ele amava isso. Ao acabar o expediente, era hora de voltar pra casa, claro. Pra variar, ele preparou seu fone de ouvido, colocou a nova do Arctic – eu disse que ele não conseguia parar – e seguiu num leve chuvisco. Caminhou pelos mesmos três quilômetros para o mesmo ponto. No meio do caminho, o chuvisco virou garoa e Carlos, que estava sem guarda-chuva, colocou seu casaco e se protegeu com o capuz. Carlos chegou ao ponto de ônibus. Um pouquinho atrasado. E ele esperou. Esperou. Esperou. Até alguém achar que Carlos não merecia mais esperar. Alguém que o achou suspeito, por usar um capuz – mesmo na chuva –, estar num lugar mal iluminado, sentado, e, segundo relatos: “aguardando para dar o bote em um cidadão de bem”. Carlos, que só queria chegar à sua casa, não chegou. Carlos não é um personagem verdadeiro. A história, provavelmente, é. A cada dia, vários negros morrem esperando ônibus, caminhando, ou papeando com os amigos, pelo mesmo motivo: nenhum. Carlos não teve culpa de morrer, assim como muitos outros. É muito difícil lidar com pessoas que não se comovem com histórias parecidas, pessoas egoístas a ponto de não se importar com isso. Pessoas que, em vez de se preocupar em acabar com o racismo, a homofobia, o machismo e outros problemas, só se preocupam com a queda do euro, para ir à Europa, curtir o show do Arctic pra escutar aquele hit novo. Enquanto isso, outros Carlos só querem chegar em casa.

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