INCOMODANDO POR ÚLTIMO

Eles não têm culpa. Não é falta de esforço. É o acaso, o atraso, uma passada mais lenta, algo que faz a diferença. No meu caso, é o siso. O último dente a nascer, geralmente, já nasce dando trabalho.

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O último lugar é tão importante quanto o primeiro. Claro, se você não estiver em último, onde o único prêmio é de consolação, mais conhecido como: medalha de honra ao mérito. Os finais de classificações são poucas vezes comemorados. Se não me foge a memória, apenas em vestibulares o último da classificação comemora. Só em vestibulares, o último – dos convocados – é bem mais feliz que o primeiro – de fora da lista.

Eles não têm culpa. Não é falta de esforço. É o acaso, o atraso, uma passada mais lenta, algo que faz a diferença. No meu caso, é o siso. O último dente a nascer, geralmente, já nasce dando trabalho. Quanto mais cresce, mais dor de cabeça.

Desde criança, não tenho problemas em perder, tenho problemas em não me divertir. Por sorte, competência, ou qualquer outro motivo, não me lembro de ter ficado em último – pode ser esquecimento, também. Nada mais estimulante a correr, do a maior ameaça infantil: virar a mulher-do-padre. E padre nem tem mulher. Ninguém queria arriscar, todos corriam como nunca. Caía, ralava o joelho, levantava. Continuava a correr. Mulher do padre, jamais.

Voltar pra casa com arranhões no joelho, pra mim, era um troféu nada recompensador, pois, em seguida tinha o banho de Merthiolate. Ardia muito, mas nada impedia de colocar um Band-Aid, e voltar a me divertir. Hoje, minha diversão não é correr. É a cervejinha do fim de semana, o hambúrguer com os amigos, entre outros entretenimentos fora da lista infanto-juvenil. Dessa vez, as cicatrizes nos joelhos, são substituídas por pontos no local do dente removido, me impedindo de poder aproveitar – e criando um problema.

Quando penso em repouso, anti-inflatórios e antibióticos, bate saudade do Merthiolate. Será que vale a pena perder um final de semana só pra não sentir incômodo na parte interna da bochecha esquerda, onde o siso fica mordendo? Dá até aquela vontade de ligar para Bruno, o dentista, e marcar para o mês que vem; o ano que vem; ou o século depois do próximo milênio.

Retomo as rédeas da situação, confirmo a consulta. Sábado, às 9h. É chato focar nos pontos incomodando na semana que vem, lembro: “calma, é só por uma semana. Pense na alegria do mês que vem; ano que vem; do século depois do próximo milênio.”.

Tirar o siso é um investimento futuro. Visionário. É cancelar um final de semana para pensar nos próximos. É ter incômodo pra se livrar de incômodo. Só me resta esperar o sábado, torcer pra não desistir até lá, e me livrar do siso, conhecido por outros como dente queiro – pra mim, sempre será o dente mulher-do-padre.


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