VOU PAGAR PRA LER

Para alguns amigos, eu não tenho direito de ser esquerda, só por gostar de Mc Donald’s, assistir Netflix, gastar dinheiro pra tomar café, e até por comer mortadela – nosso apelido carinhoso vindo dos coxinhas.

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Semana passada, tive uma péssima ótima notícia: um dos colunistas que mais gosto voltou a escrever pra um dos jornais que mais gosto. Sim, isso é terrível. O Gregório voltou a escrever para a Folha de São Paulo, e eu, esquerdista, odiei gostar disso.

A Folha tem a equipe de colunistas que eu mais gosto: Daniel Furlan, da TV Quase, Gregório Duvivier, do Porta dos Fundos, e o Antonio Prata, do Antonio Prata – ele é referência dele mesmo –, entre outros. O que me põe numa situação delicada: gastar dinheiro.

O mundo das assinaturas segue desde os anos de mil novecentos e bolinhas, e o “jornal que mais se compra, e nunca se vende” segundo a propaganda do Olivetto, em 1987, oferece planos para pôr a carteira de qualquer leitor em risco.

Atualmente, uso um plano gratuito, que oferece 10 conteúdos por mês. Antes do Greg voltar, eu conseguia administrar bem os domingos do Prata, e as segundas do Furlan. Dentro do meu orçamento, lia oito crônicas por mês, no limite do plano. Ainda sobrava um troquinho pra ler o Luiz Felipe Pondé, só pra ter mais certeza do quanto o acho babaca.

O troco acabou desde a semana passada. As duas por semana, oito ao mês, serão substituídas por três semanais, doze mensais – juro: nem precisei de calculadora pra essa conta –, excedendo meu limite, e saindo do meu orçamento gratuito.

E agora?

Parafraseando Shakespeare: “Ler ou não ler? Eis a questão”. Como boa parte dos esquedistas classe média, eu tenho pena do meu dinheiro, e sou contra gastos fúteis. Menos quando tem promoção de blusa quadriculada. Todo mundo tem um kriptonita, né?

Para alguns amigos, eu não tenho direito de ser esquerda, só por gostar de Mc Donald’s, assistir Netflix, gastar dinheiro pra tomar café, e até por comer mortadela – nosso apelido carinhoso vindo dos coxinhas. Sou obrigado a discordar, e dizer que estou oferecendo ajuda aos ideais egoístas deles, afinal, imagine o que eu faria num domingo sem a Netflix? Protesto na Getúlio Vargas? Estou poupando vocês disso, amigos “liberais-conservadores”. Prefiro passar às manhãs dominicais dormindo, às tardes assistindo e escrevendo, e às noites deveriam acabar em pizza. Em tradução livre: alimentando o capitalismo.

Sou esquerda porque acredito que todo mundo deve ter o direito de poder alimentar o capitalismo como eu alimento – e quando digo todo mundo, é todo mundo mesmo.

Se um dia o Gregório achar essa crônica perdida entre os quatro cantos da internet, quero que ele saiba o quanto fico feliz pela sua volta à Folha. Talvez, saia do meu orçamento custo zero, mas é uma leitura que vale a pena. Inclusive, deixo de recomendação para você, leitor.

Aos meus amigos coxinhas, um abraço. Enquanto eu tiver saúde, continuarei do outro lado da força. Enquanto eu tiver dinheiro, vou pagar pra ler. E pra ver até onde o Brasil vai.


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