FEIRA QUE VIVI - XI

Foto: Divulgação

1964 foi o epílogo de1962.

Com o mundo dividido entre capitalismo e comunismo, a renúncia de Jânio Quadros (PDC) em 1961 trouxe à cena João Goulart (PTB), vice-presidente que participara da chapa adversária (a do Gal. Lott) e que deveria assumir a presidência (pela legislação então vigente, os votos para presidente e vice eram contados separadamente, ganhando o candidato a vice que conseguisse maior número entre os concorrentes ao mandato).

A renúncia de Jânio escancarou impasse ideológico, entendendo alguns, em especial amplos setores das Forças Armadas, que Jango, próspero estancieiro gaúcho, desejava implantar uma república sindicalista ou comunista no Brasil. Para agravar o quadro, quando da renúncia de Jânio, Jango estava em visita à China Comunista, ainda isolada dos Estados Unidos. O Alto Comando Militar vetou a posse do vice. O imbróglio foi contornado com a aprovação pelo Congresso do regime parlamentar, e a aceitação do nome de Tancredo Neves como primeiro ministro (chefe de governo), vale dizer, retirava-se a governança de Jango. Meses depois, o presidente, não satisfeito com a retirada de seus poderes, convocou plebiscito (consulta popular), voltando tudo ao estado anterior e à administração plena do presidente.

Daí as forças conservadora passaram a se aglutinar. Políticos, lideranças empresariais e intelectuais criaram dois centros civis de estudos e agitação (o IPES e o IBAD). Este contava como líder, na Bahia, o deputado federal João Mendes da Costa, de Cachoeira.

Incentivados pelos governadores de Minas (Magalhães Pinto), Rio de Janeiro (Carlos Lacerda) e São Paulo (Adhemar de Barros), promoveram passeatas com as faixas por 'Deus, Pátria e Família', panelaços e movimentos nos quarteis. E, com o clima criado com o célebre comício da Central do Brasil (13/3), realizado por Jango e movimentos sindicais e estudantis, a bolha estourou 18 dias depois, na madrugada de 1° de abril de 64.

A descida de militares de Juiz de Fora para o Rio, sem encontrar resistências e a ida de Jango para o Rio Grande do Sul para reunir forças legalistas, deixou campo para o Congresso se reunir e declarar a vacância de seu cargo, ficando o presidente da Câmara como mandatário provisório.

Consolidado o golpe, no dia 2 de abril, Chico Pinto chamou cedo dois amigos ao gabinete (o Cel. Alfredo Coelho, da reserva da PM e diretor do Colégio Municipal e seu ex-chefe de Gabinete Roque Aras) e lhes disse. Vão ao Batalhão da Polícia Militar e conclamem o Comandante para que ele chefie comigo a resistência armada democrática em Feira, e se ele não concordar diga-lhe então que nos consiga armas que a faremos. Estejam preparados, também, para ficarem presos, pois o Comandante pode não gostar de nossa iniciativa.

Os emissários foram ao Comando da Polícia Militar, que ficava no antigo e belo prédio da Santa Casa, na descida para a Rua Nova (Rua Carlos Bahia). Recebidos pelo Comandante e depois de ouvir as conclamações e justificativas, lhes respondeu: 'Poderia mandar prendê-los por tentarem sublevar uma unidade militar, mas não o farei. Digam ao Prefeito que o soldado deve obedecer a ordem de seu comandante, e o meu comandante é o governador do Estado, ao qual seguirei. E mais, a Polícia Militar nunca ficou contra seu governador, motivo maior para que eu também não fique.' E com isto levou os emissários à porta do quartel e deles se despediu.

Na volta, tiveram conhecimento de que Lomanto Junior (do PTB, o mesmo partido de Jango), que no dia anterior havia defendido a legalidade e o apoio ao presidente, acabara de garantir seu apoio ao movimento militar, o que fez ao General Justino Alves, comandante do 5° Exército (Recife), que viera a Salvador para pressioná-lo.

Quem esteve presente ao encontro contou que, notando o General que seus cigarros haviam terminado, perguntou ao Governador se ele fumava, tendo este prontamente respondido: 'Eu não fumo, General, mas se o senhor quiser passarei a fumar'...

Era o fim da ordem democrática e o início das perseguições.


Por: Pedro Cleto 

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