PAU DE COLHER - II

Foto: Divulgação

Nossas polícias militares foram formadas e treinadas para operações de guer-ra. Eram utilizadas para resolver conflitos fundiários ou messiânicos nas provín-cias, principalmente no nordeste, ou quando o Governo Central pretendia es-magar, com o exército, movimentos separatistas ou reivindicatórios. Entre bai-anos e pernambucanos nossa participação na Revolução de 1817, ao lado do governo federal, nos deu metade de Pernambuco (comarca do São Francis-co). Até hoje choram e reivindicam, com projetos de lei na Câmara Federal. O futebol absorveu em parte a hostilidade.

Houve massacres da Polícia cearense, no Cariri. No Crato e Juazeiro do Norte (CE), o Padre Cícero alojava romeiros pobres na fazenda Caldeirão, on-de fora estabelecida uma sociedade igualitária com base religiosa. A produ-ção de frutas e cereais era dividida fraternalmente e o excedente vendido para serem adquiridos remédios e querosene, também repartidos, para ilumi-nação das casas. A população na área cresceu com a seca de 32, e com a morte do Jesuíta em 34 os agricultores ficaram desamparados. A Ordem Reli-giosa reclamou a propriedade do bem, e Getúlio Vargas em 37, na sua caça aos comunistas depois da Intentona, determinou a reintegração de posse da área, tendo a Polícia cumprido a ordem e liquidado de 400 a 1.000 lavradores, que se defendiam das balas dos fuzis apenas com  cacetes, contendo o de-senho ou formato de uma cruz. Daí serem chamados de caceteiros. Seu líder, o beato, José Lourenço fugiu para Pernambuco.

Os sobreviventes, liderados pelo beato José Senhorinho, rompendo a caatinga, fugiram para o povoado de Pau de Colher, município de Casa No-va, com o qual já mantinham contatos religiosos pelo prestígio do Padre Cíce-ro. Aí praticavam certos rituais, rígida disciplina, e a mesma divisão de resul-tados.

Ante o crescimento da população de fanáticos na Fazenda Pau de Co-lher, e a alegada prática comunista, a família Viana, pediu ajuda ao governo da Bahia e este ao de Pernambuco e do Piauí, em fins de 1937.

As Polícias dos três estados chegaram à região em princípios de 1938, mas a de Pernambuco com metralhadoras foi a primeira a chegar, encon-trando resistência dos caceteiros que tombavam abraçados às suas armas...

Houve, então, o massacre, não sendo poupadas mulheres ou mesmo crianças. As cenas descritas pela Polícia baiana que lá chegou logo depois, são de sensibilizar qualquer vivente.

Na reintegração da Codevasf pela Federal agora, não foi repetida a cena anterior, evidentemente. O juiz federal adotou providências cautelares, embora, tendo de aplicar a lei não pudesse fazer justiça – como o faria o bom juiz Magnaud.. 

Em janeiro de 1938, eu estava na área da gare do trem quando os milita-res chegaram de Salvador e partiram para Juazeiro, para serem embarcados no vapor (gaiola) que os levaria a Casa Nova; e muitos dias depois, vi quando retornaram em comboio igual conduzindo esqueléticas e esfarrapadas crian-ças, órfãs de pais e mães tombados e incinerados no longínquo sertão de Ca-sa Nova (BA), que iriam ser ''criadas' para servirem de domésticas aos milita-res.

Infelizmente, o fanatismo foi (e é) o maior mal que se abateu e se abate   sobre a humanidade. Já deixou mais vítimas que todas as pandemias juntas, consideradas desde as ocorridas na mais remota antiguidade.

E a crueldade humana bem pouco diminuiu até agora, desde Shi Huang ou Gengis Khan, ou dos ensinamentos de Zoroastro ou do evangelho de Cristo. Até quando? Ou está no gene?

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