FEIRA QUE VIVI - VIII

Muito já se escreveu sobre nossa feira semanal; pouco ou nada a acrescentar. Os feirantes ocupavam a parte central da cidade e igualavam-na à feira de Caruaru. As repartições públicas quase não funcionavam às segundas. Por isso, foi um ato de coragem do prefeito José Falcão construir o Centro de Abastecimento lá embaixo e compactar, em 1976, aquela multidão em espaço restrito.  Houve protestos, bem captados pela verve insuperável de Hugo Silva, editor da Folha do Norte.

Restou intocado o tradicional Mercado Municipal.

Evento importante na cidade foi a visita, em agosto de 1950, de Getúlio Vargas, na campanha das eleições gerais. Comício marcado para às 10 horas (da manhã), na confluência das praças da Bandeira e João Pedreira com a rua Marechal Deodoro, frontal à tradicional Farmácia Agrário, em local preferido para concentrações.  O país estava dividido entre Getúlio Vargas (PTB), ditador deposto cinco anos antes, e o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), um dos 18 do Forte, movimento tenentista que precedeu à Revolução de 30. O PSD, o maior partido nacional participava com o mineiro Cristiano Machado, que terminaria 'cristianizado'... (neologismo que expressava a traição de seus companheiros do PSD, que votaram em Getúlio).

A UDN em Feira era forte, martelava: 'o preço da liberdade á a eterna vigilância'. Contava com a ajuda da prestigiada elite política, a nata da aristocracia rural; da juventude e do bem lembrado ex-interventor Juracy Magalhães, seu então candidato ao governo do Estado e muito admirado pelos correligionários locais.

Vargas foi hóspede de Chico Pinto e tinha a simpatia do tradicional PSD.

Presentes na comitiva, o candidato a governador Lauro Farani, o futuro senador Landulfo Alves, o deputado federal Carlos Valadares e outros políticos. 

Aberto o comício pelo locutor, os udenistas que haviam se postado nas proximidades do palanque, passaram a gritar e provocar tumultos, comandados por conhecido agitador, Martiniano que de carneiro tinha só o apelido,  jovem industrial e que deixou prestigiosa prole. Eu era multidão. Os empurrões, brigas e palavrões em breve se espalharam, e o coro Farani rato, Farani ladrão, Farani rato, rato, Farani ladrão, foi se elevando a tal nível que o comício, ante a perplexidade dos candidatos, teve de ser encerrado sem discursos, pois passaram a temer uma luta campal ou um massacre entre assistentes opostos. Os juracisistas agitavam até mecanismos de capturar ou esmagar roedores. 

Com dificuldade, os políticos foram descendo do palanque, com o preto Gregório, segurança de Vargas, abrindo caminho com sua metralhadora, acompanhados de simpatizantes, retornando à casa de Chico Pinto, e dali voltando para Salvador. As acusações eram concentradas em Farani, candidato ao governo, em razão de supostos desvios de verbas públicas ao tempo em que fora diretor da VFF Leste Brasileiro... Não havia agressões verbais a Getúlio. Aliás, a pecha de corrupto nunca lhe foi perspegado, embora o desvio de conduta tenha chegado até nós com Tomé de Souza. Que o diga Gregório de Matos ou o Padre Vieira, com seu 'Sermão do bom ladrão'.

Naquele dia de agosto, mês aziago para Vargas, pela primeira vez em quase vinte e cinco anos na política nacional não ecoou nos céus do Brasil a voz do gaúcho que chegava aos corações e agitava as massas; que implantou direitos sociais (logo depois de mexicanos e de italianos); que tentou alterar o perfil da economia retirando o país do modelo agrícola a fim de criar  poderoso mercado interno, e um modelo industrial. Os ares, nesse dia, não ecoaram a invocação que na Rádio Nacional ou Tupy era uma constante, forte, pausada e simbólica que consagrou o baixinho como o “pai dos pobres”: 'Tra-ba-lha-do-res do Bra-sil'!...

Com o sol no zênite, o homem que comandou o país por dezenove anos, doze dos quais com mão de ferro e a ajuda de Filinto Müller, aquele que era reverenciado e cantado pelas crianças nas escolas do país, todo dia 19 de abril, seu aniversário, e eu também quantas vezes cantei 'Getúlio Vargas, Getúlio Vargas, nobre filho dos pampas do sul...', cruzava a praça João Pedreira em demanda da Senhor dos Passos, calado, cabisbaixo, limpando o suor do rosto,  submetido à pressão da multidão para ele até então desconhecida.  

Voltava a sentir, como em 34 e em 45, que o poder não pode ser absoluto.

Dias depois, em setembro, no auge da campanha, Lauro Farani morreu em acidente aéreo no município de Bom Jesus da Lapa, com o deputado Gersino Coelho.

Promovida a substituição do candidato a governador, foi escolhido Régis Pacheco, de Vitória da Conquista. O primeiro comício de sua campanha teria de ser, todos diziam, em Feira de Santana, para promover um desagravo e atingir as forças juracisistas, mesmo estando elas sofrendo violenta acusação de ter seu chefe mandado misturar areia na gasolina do teco-teco de Lauro Farani, provocando o acidente. 

À tarde de um dia de setembro, e do comício, já se viam policiais militares em todas as ruas e praças do centro da cidade. À noite, apareceu outro tanto que circulava entre a multidão.

A mansão de Eduardo Fróes da Mota, na esquina da praça, regorgitava de senador, deputados, prefeitos, pessoas importantes.

Na hora anunciada, tocou a banda da polícia e desfilaram pelo microfone dezenas de políticos, e por último o candidato a governador que, àquela altura, já estava abastecido de tantas doses de whisky que, como comentaram depois, não pôde se demorar na sua loquacidade...

Tudo correu bem, e Régis Pacheco teve uma grande vitória em Feira de Santana, juntamente com o baixinho (Gegê) e os seus candidatos. 

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