A FEIRA QUE VIVI - IV

Foto: Divulgao

Durante o dia ouvíamos a nossa emissora, mas, à noite, não nos afastávamos da Rádio Nacional e da Rádio Tupy. Dick Farney, Francisco Alves (Cinco letras que choram...); Nelson Gonçalves (Cansado de tanto amar..); Orlando Silva (Tu és divina e graciosa...); Dorival Caymmi, Marlene, Dalva de Oliveira e outros. Alô, saudosistas!

Os programas de auditório, com fortes patrocínios e prêmios, levavam ao Rio e São Paulo gente de todo o país. Havia, também, em nossa emissora, no auditório do primeiro andar do prédio da Rua Tertuliano Carneiro com Praça Fróes da Mota e com premiações modestas, evidentemente. Um dos mais concorridos por jovens aos sábados à tarde, era: “O moreno mais bonito do auditório”... 

Um dos assíduos participantes, foi, por acaso, sorteado em âmbito nacional para comparecer a um desses programas na Rádio Tupy, com despesas pagas. Viajar de avião, em um dos versáteis DC3 (restos de estoque de bombardeiros da 2ª. Guerra, que eram pilotados também por nossos heróis do Senta a Pua, como Gustavo dos Santos (a cobra fumando na fuselagem); conhecer o Rio e talvez voltar com um prêmio era evento fantástico que agitou a turma.  Formou-se torcida. O teste consistia em o candidato, isolado em uma cabine sem acústica, responder a três perguntas que surgiam em um painel, sucessivamente. Ao aparecer o letreiro de uma questão para o isolado candidato, este deveria escolher entre três que lhe eram oferecidas (Sílvio Santos copiou). As duas primeiras foram acertadas pelo nosso jovem. Auditório lá e torcida nacional vibraram. A terceira de conhecimento apenas do auditório e dos ouvintes era 'Na Bahia onde são colocadas as lâmpadas de iluminação pública?' E nosso herói, vendo apenas as três opções que lhe eram propostas 'a) nos hidrantes, b) em coqueiros ou c) nos postes', não teve dúvida em tacar a segunda resposta ('nos coqueiros'). 

Foi uma esculhambação geral no auditório, com o animador gozando os   baianos, os ouvintes e nossa cidade decepcionados e nosso herói arrasado. Aqui chegando, ele não saiu à rua durante muitos dias...

Gustavo dos Santos, nosso herói, que deu nome a uma rua em Salvador, entre a Avenida Sete e a Carlos Gomes, era piloto da FEB (Força Expedicionária Brasileira). Recebeu a missão de, junto com outros, destruir depósito de munição dos alemães, na Itália. A aproximação aérea era difícil face a cortina de fogo antiaéreo das baterias inimigas. Então, nosso patrício não teve dúvida, vendo ser impossível a tarefa: embicou seu bombardeiro sobre o tal depósito e com ele explodiu. Cumpriu sua missão... 

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As festas religiosas eram concorridas. Os católicos eram quase unanimidade.

As 'lavagens' dos degraus da Matriz eram concorridas, desde o começo da Rua Direita até a Praça. Filarmônicas, instrumentos musicais, cantorias, fantasias alegravam os grupos. Muitos rapazes e adultos se trajavam com vestes femininas, ficando bem caracterizados. Os estudantes de fora preferiam se transformar em casas de prostitutas nos frequentados becos do Mocó, do Ginásio, da Energia, do Baneb, pois as donas dos pensionatos não admitiriam.

A festa da Padroeira enchia a catedral e se estendia pelo resto da praça, ficando os vendedores espalhados pelo jardim de seu lado esquerdo.

A realização das missas e demais atos religiosos internos eram incansáveis sob o comando do Padre Aderbal com sua doçura, e seus olhos piedosos e esverdeados davam o tom necessário à sacralidade do evento. Fora dali, desapertavam comerciantes endividados...


Por: Pedro Cleto 

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