
Meteorologista Humberto Barbosa explica como o fenômeno já influencia a circulação atmosférica no Brasil. Boletim de órgãos federais aponta risco de chuvas abaixo da média e agravamento da seca na Bahia.
O El Niño alcançou a categoria de intensidade muito forte no Pacífico Equatorial, aumentando a preocupação com os possíveis impactos sobre o clima brasileiro nos próximos meses. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, interfere na circulação atmosférica e pode modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
Em análise sobre o cenário atual, o professor Humberto Barbosa, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS), explica que a atmosfera brasileira já apresenta respostas associadas ao fortalecimento do fenômeno.
Segundo o pesquisador, os efeitos são percebidos de maneira diferente entre as regiões do país. No extremo Norte, especialmente na Amazônia, observa-se uma redução das chuvas e a presença de massas de ar seco. No Sul, por outro lado, a atmosfera mais úmida e instável tem favorecido tempestades severas, inclusive com ocorrência de tornados.
Barbosa também chama a atenção para a atuação do jato subtropical, corrente de ventos em grandes altitudes que influencia o deslocamento de sistemas meteorológicos. De acordo com sua análise, as alterações na circulação atmosférica associadas ao El Niño favorecem a formação de bloqueios atmosféricos, contribuindo para a permanência de massas de ar quente e para o registro de temperaturas elevadas no Norte e Nordeste.
O pesquisador ressalta que a passagem de frentes frias pode provocar alívio temporário nas temperaturas, mas não representa necessariamente uma mudança duradoura no cenário climático. Enquanto o El Niño permanecer intenso, a circulação atmosférica continuará sujeita a alterações.
A análise do coordenador do LAPIS encontra um contexto de atenção no quinto boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado em 29 de outubro por um conjunto de instituições federais, entre elas INMET, INPE, ANA e Cemaden. O documento aponta elevada probabilidade de manutenção do fenômeno até o primeiro trimestre de 2027, com intensidade forte a muito forte. Para o trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027, a previsão indica maior probabilidade de chuvas acima da média na Região Sul e abaixo da média em grande parte do Norte e em áreas do Nordeste.
As temperaturas também devem permanecer acima da faixa normal em quase todo o território nacional. Um dos dados que mais preocupam é o avanço da seca. O Índice Integrado de Seca do Cemaden, com dados parciais de outubro, identificou 68 municípios brasileiros em situação de seca extrema e outros 232 em seca severa. A intensificação está concentrada principalmente no Nordeste, com destaque para Bahia, Alagoas, Sergipe e Pernambuco.
Para a agropecuária, o cenário exige atenção. A combinação de calor e irregularidade das chuvas pode comprometer o desenvolvimento das lavouras de sequeiro, reduzir a disponibilidade de pastagens e ampliar a pressão sobre os recursos hídricos utilizados no abastecimento humano e na produção rural.
Diante da necessidade de acompanhar a evolução do fenômeno, o Laboratório LAPIS colocou em funcionamento um canal no WhatsApp para compartilhar atualizações sobre tempo, clima e a influência do El Niño.
A iniciativa disponibiliza informações em tempo real, mapas e análises produzidos a partir de dados de satélites e ferramentas de geotecnologias, permitindo acompanhar a distribuição das chuvas, as temperaturas e outros indicadores ambientais.
O canal é aberto ao público e pode ser acessado pelo endereço:
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Humberto Alves Barbosa é professor associado da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), meteorologista, pesquisador em Ciências Ambientais e especialista em sensoriamento remoto.
É graduado em Meteorologia pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), mestre em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e doutor em Ciências do Solo, Água e Meio Ambiente, com ênfase em Sensoriamento Remoto, pela Universidade do Arizona, nos Estados Unidos. Também realizou pós-doutorados nas universidades de Bergen, na Noruega, e de Colônia, na Alemanha.
Em 2007, fundou o LAPIS, laboratório dedicado ao processamento e à análise de imagens de satélites e ao desenvolvimento de metodologias para monitoramento ambiental e climático.






