
O júri popular que vai julgar o homicídio de Kauan Gomes, de 20 anos, acontece nesta quinta-feira (13), em Feira de Santana. Às vésperas do julgamento, a família do jovem voltou a pedir justiça e relembrou a violência que interrompeu seus planos e deixou uma ausência que, segundo a mãe e a avó, permanece presente todos os dias.
Kauan foi baleado na cabeça na manhã de 13 de dezembro de 2024, enquanto estava no banco do carona de um carro. Ele foi socorrido e encaminhado ao Hospital Geral Clériston Andrade, onde permaneceu internado. Dias depois, a morte cerebral foi confirmada.
Na ocasião do ataque, Kauan estava acompanhado da mãe, Samille Gomes, que dirigia o veículo, e de uma jovem que estava no banco traseiro. Segundo o relato da mãe, um carro modelo Corolla, de cor preta, se aproximou e um homem teria colocado o corpo para fora do veículo antes de efetuar o disparo contra Kauan.
Após perceber que o filho ainda apresentava sinais de vida, Samille o levou para o Hospital Geral Clériston Andrade, onde ele recebeu atendimento médico.
Na véspera do julgamento, Samille Gomes e a avó de Kauan, Sidônia Gomes, participaram do programa Nas Ruas e na Polícia, comandado pelo radialista Aldo Matos, e falaram sobre a dor provocada pela perda, os momentos que antecederam o crime e a expectativa para o júri.
Samille afirmou que, mesmo com o passar do tempo, a família continua profundamente abalada com o crime. Para ela, o julgamento representa a possibilidade de encerramento de um ciclo e de uma resposta da Justiça.
“Nós continuamos abalados e estarrecidos diante de toda a violência que aconteceu contra o meu filho no dia 13 de dezembro de 2024. O mínimo que nós pedimos é o respeito pela família e que amanhã seja feita a justiça”, afirmou.
A mãe relembrou que estava ao lado de Kauan no momento do ataque. Segundo ela, os dois saíram de casa por volta das 5h40 em direção à academia onde o jovem estagiava.
“Kauan estava do meu lado, no banco do carona, com o fone de ouvido dele, como todos os dias acontecia. Nós íamos para a academia onde Kauan estagiava e eu ia treinar”, contou.
Durante o trajeto, Samille ouviu um barulho e chegou a comentar com a jovem que estava no banco traseiro que poderia ter sido um tiro. Pouco depois, percebeu a aproximação de um Corolla preto.
Segundo o relato, o veículo se aproximou e um homem teria colocado o corpo para fora e efetuado o disparo. Samille contou que, inicialmente, pensou que o filho estivesse morto, mas percebeu que ele ainda respirava.
“Eu vi Kauan morto, porque naquele momento ele não tinha reação, estava de olhos fechados. Quando eu volto para o carro para falar com ele, percebo que ele tinha fôlego de vida”, relatou.
Quase dois anos após a morte de Kauan, Samille afirma que ainda não consegue dimensionar a dor provocada pela perda.
“Eu vivo com essa dor todos os dias. É um aperto no peito de todos os dias”, declarou.
Segundo ela, Kauan era um jovem pacato, amoroso e respeitador, que estava construindo seus planos e buscando realizar seus sonhos.
Para enfrentar a ausência, a mãe afirma que encontra na fé a força para continuar.
“O que me sustenta até aqui é a fé. É a fé em Deus que me faz todos os dias levantar”, afirmou.
Após a confirmação da morte cerebral, a família autorizou a doação dos órgãos de Kauan. Para Samille, a decisão trouxe um novo significado para a tragédia.
O coração de Kauan foi transplantado e a família chegou a ter contato com o receptor. Outros órgãos também foram doados.
“Ter podido fazer essa doação, não ter perdido Kauan logo na sexta-feira, ter conseguido pelo menos ressignificar um pouco dessa dor, é a certeza de que a gente fez o bem também para outras famílias, mesmo tendo recebido o mal”, disse.
A mãe contou ainda que teve contato com o receptor do coração e com o receptor de um dos rins do filho. Um possível transplante de pulmão, que poderia ter sido pioneiro na Bahia, acabou não sendo realizado por questões relacionadas à chegada da equipe responsável.
Um dos receptores do órgão de Kauan estará presente no julgamento desta quinta-feira, acompanhado da esposa. Segundo Samille, ele não participará do júri, mas assistirá à sessão.
Para a mãe, o julgamento não vai diminuir a saudade nem devolver a vida do filho, mas representa uma resposta necessária para a sociedade e para a família.
“A justiça de amanhã é somente para poder encerrar um ciclo, de saber que aqueles que cometeram esse ato serão punidos perante a sociedade. Para nós, enquanto família, a gente vai seguir sentindo esse vazio, essa dor. A gente não vai ser restituído, mas a sociedade precisa de resposta”, afirmou.
A avó de Kauan, Sidônia Gomes, também falou sobre a perda durante a entrevista. Emocionada, ela contou que mantém uma fotografia do neto ao lado da cama e conversa com ele diariamente.
“Eu converso com meu neto todos os dias. Tenho foto dele na cabeceira da minha cama praticamente e todos os dias eu converso com ele. Todos os dias eu digo: Cacau, eu te amo para sempre”, relatou.
Sidônia afirmou que a ausência do neto está presente nos momentos mais simples da rotina familiar.
Segundo ela, reuniões e encontros da família perderam parte do significado que tinham antes da morte de Kauan.
“Tudo é muito falta dele. Não há nada que nós façamos que não sintamos a falta dele”, disse.
A avó também relembrou a relação próxima que tinha com o neto, a quem ajudou a criar.
“Kauan sempre foi um menino muito obediente, muito amoroso com todos nós. A família era apaixonada e é até hoje”, afirmou.
Ao falar diretamente para o neto, Sidônia se emocionou: “Kauan é e será sempre o meu neto, filho caçula nosso, amado por todos da família. Nunca vou te esquecer. Nunca esqueceremos de você, Cacau. Você está aqui agora juntinho de nós”.
Para a família, o julgamento desta quinta-feira representa a expectativa de uma resposta da Justiça para um crime que, segundo mãe e avó, mudou para sempre a vida de todos que conviveram com Kauan.






