
Uma das datas mais importantes para a movimentação do varejo brasileiro, a Páscoa neste ano será mais cara e com menos cacau de qualidade nas prateleiras. Essa é a previsão do empresário Marco Lessa, fundador do ChocolatFestival e Bahia Origem Week e uma das figuras mais atuantes e influentes do mercado do cacau brasileiro no exterior.
Em entrevista, o especialista expõe o cenário delicado que o setor enfrenta com a crise global de oferta, alta nos preços e impactos climáticos e aponta caminhos para a recuperação deste mercado e a valorização dos produtores. Acompanhe:
1. A Páscoa é o período mais importante para o setor de chocolates. Qual é o impacto dessa sazonalidade para a economia da Bahia?
BOM DIA FEIRA: A Páscoa começa quase um ano antes, quando as empresas de chocolate desenvolvem as suas formulações, reeditam os seus produtos, desenvolvem embalagens e composição. Portanto, para muitas empresas de todos os portes – pequenas, médias e grandes – a Páscoa começa com muita antecedência. Naturalmente se tem um setor de pequenos e micro empreendedores e agricultores familiares que desenvolvem produtos, e muitos deles fazem os seus ovos, tabletes, bombons a partir da amêndoa de cacau, e claro que isso tem um impacto maior, sem levar em consideração os outros produtos da época, como o peixe, o bacalhau, azeite, entre outros. Mas falando especificamente do chocolate, é evidente que há um aumento significativo de consumo, sendo a Páscoa o principal período do ano de consumo de chocolate, seguido do Natal.
2. Bahia e Pará lideram a produção brasileira de cacau. Como você avalia hoje o posicionamento da Bahia nesse cenário competitivo?
BDF A Bahia e o Pará concentram mais de 90% da produção brasileira de cacau. A Bahia, nesse cenário, perdeu mercado por conta do crescimento do Pará e da crise da vassoura-de-bruxa, especialmente nos últimos 30 anos. Mas o estado ainda disputa a liderança. No ponto de vista de produção ou de transformação, os dois maiores produtores somados, junto aos outros estados brasileiros (que hoje já chega em torno de 24 estados), que têm alguma produção de cacau, por menor que seja, isso ainda é menos do que a indústria precisa para processar.
Portanto, você tem uma oferta menor do que a procura. A Bahia tem como um ativo a sua história com o cacau, a cultura da região cacaueira e o que foi desenvolvido também culturalmente, como novelas, livros, Ilhéus, além, naturalmente, do sistema cabruca, onde se produz cacau sob a copa das árvores, num sistema preservacionista. É por isso que eu digo que o cacau é o símbolo da sustentabilidade brasileira, porque é uma cultura que preserva o meio ambiente e, além de tudo, tem uma importância econômica e social.
Entre o Pará, Bahia e outros estados, são mais de 120 mil produtores.
3. O aumento global no preço do cacau tem sido destaque no mercado. Como essa valorização impacta diretamente os consumidores e produtores?
BDF: O cacau se estabilizou nos últimos 15 anos numa faixa de $2.500 a $3.000 dólares a tonelada. Em certo período no ano passado, ele chegou a $12.000 dólares a tonelada, o que entusiasmou bastante o mercado. Mas o preço da commodity é insuficiente para um padrão de qualidade de vida para o produtor rural, que 98% são micro, pequenos, produtores e agricultores familiares. Portanto, é um risco muito grande para o produtor de cacau um preço tão baixo, porque ele não sustenta a sua lavoura, os custos são muito altos, de mão de obra, de insumos, de combate à pragas, como também é uma ilusão, um valor de 10, 12 mil dólares a tonelada.
É importante pensar a cacauicultura para daqui há algumas décadas. É necessário planejar e principalmente preparar o consumo para um produto que ainda tenha essa autenticidade, essa qualidade que é o chocolate com alto teor de cacau e outros coprodutos do cacau. E na contramão da indústria que tem oferecido ao mercado um chocolate sabor artificial de cacau, um produto que é de péssima qualidade e o pior: faz muito mal a saúde.
4. A Bahia pode voltar a liderar em produção e exportação o mercado do cacau brasileiro? Quais caminhos para isso?
BDF: A Bahia tem condição de liderar a transformação rumo ao cacau fino sustentável. O estado tem uma condição privilegiada de logística, ele está no centro geográfico do Brasil, tem porto, aeroporto, rodovias federais, tem o maior número de marcas de chocolate bean-to-bar, produzidas a partir da amêndoa do cacau, então podemos promover essa liderança, mas que não é uma condição tão vantajosa, eu acho que o Brasil tem que fazer isso, tem que estimular que outras regiões também produzam.
5. O Chocolat Festival nasceu na Bahia e hoje é referência na América Latina. Qual o papel estratégico do evento na consolidação da Bahia como destino internacional do chocolate e do turismo de experiência?
BDF: Eu falo com muita tranquilidade sobre o Chocolat Festival, sobre o que ele provocou na indústria de chocolate e cacau do Brasil, porque eu cheguei em Ilhéus em 1988, vivi todo o momento da vassoura-de-bruxa, todo o processo de crise, de destruição, onde a região foi ao fundo do poço e vivi as décadas onde só se falava em dívida, pragas e as fazendas abandonadas, pessoas deixando suas roças, dívidas em banco e até suicídios. Eu vi esse pesadelo. E o que eu pude contribuir enquanto cidadão e um agente do setor produtivo na área de eventos, na área de marketing, foi tentar estimular a verticalização e a agregação de valor, de maneira que essa transformação não fosse apenas pontual e que ela não fosse a curto prazo, que ela não durasse apenas durante um evento ou uma feira.
Nós montamos uma estratégia e o Chocolat Festival transformou a cadeia produtiva do cacau e chocolate na Bahia e Brasil, com efeitos do mundo, através da vinda de grandes nomes da chocolateria, chefs de cozinha, jornalistas, produtores e fizemos um trabalho muito cuidadoso em todos os aspectos para que isso impactasse e mudasse a vida das pessoas. A maior razão do Chocolate Festival foi transformar a vida dessas pessoas, esses pequenos produtores, agricultores familiares, dessas famílias, desses homens, mulheres, jovens que sofriam tanto no campo como na cidade, que impactou também na vida urbana e também no consumo. Nós queríamos que o consumidor tivesse a percepção que o cacau não era coadjuvante, o cacau é protagonista. Chocolate existe porque existe cacau.





