Após sombra de Escobar, Colômbia divide presidenciáveis com explosão de cultivo de cocaina

Um propõe a volta da fumigação aérea com elementos químicos, e o outro diz que seguirá a política de Santos para não provocar inquietação nas áreas rurais.

© Reuters

Os dois candidatos que foram ao segundo turno da eleição presidencial na Colômbia, a ser realizado no dia 17, têm posições opostas em relação a como domar a crescente expansão da área de cultivo de coca para a produção de cocaína, um dos principais legados negativos do governo de Juan Manuel Santos (2010-2018), como ele mesmo vem admitindo em entrevistas.

Enquanto o direitista Iván Duque, 41, favorito nas pesquisas, propõe a volta da fumigação aérea com elementos químicos, suspensa em 2015, e fazer da erradicação algo obrigatório, o segundo colocado, o esquerdista Gustavo Petro, diz que seguirá a política de Santos para não provocar inquietação nas áreas rurais.

Desde que o presidente proibiu o uso dessas substâncias, por considerar, a partir de estudos, que eram cancerígenas e afetavam a população rural, a produção inicialmente duplicou e depois seguiu aumentando, ainda que a níveis menores.

A proposta de Santos foi oferecer aos produtores um programa de substituição de cultivos não obrigatório e fazer erradicação manual nos terrenos em que se tem certeza de que a produção é destinada ao refinamento da droga.

O certo é que a posição de Santos, considerada leve também pelo atual governo dos EUA -Barack Obama era favorável, mas Donald Trump, não-, pode trazer problemas para a implementação do acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

Obama havia prometido uma ajuda financeira incondicional nos próximos anos para seguir o programa santista.

Já Trump sugeriu vincular a continuidade da ajuda a uma verdadeira redução da produção de coca. A maioria dos parlamentares republicanos no Congresso dos EUA diz que o apoiaria nessa decisão.

Mas quem produz cocaína na Colômbia, depois que as Farc foram desmobilizadas?

Uma mistura de grupos, formada pelos bandos criminosos, que reúnem ex-paramilitares, ex-guerrilheiros e narcotraficantes, dissidentes das Farc (entre 800 e 1.000 pessoas, segundo o governo), o ELN (Exército de Libertação Nacional, ainda ativo, apesar de estar negociando um acordo de paz) e o Clã do Golfo, cartel que também está em conversas para se dissolver.

"O Estado precisa controlar as áreas rurais se quiser que o futuro da Colômbia seja de desenvolvimento econômico e geopolítico, e isso não tem a ver com uma agenda pró ou contra acordo de paz. É essencial fazer um verdadeiro esforço contra o cultivo de coca destinada à produção de cocaína. É um desafio muito sério e não resolvido", diz Cynthia Arnson, diretora do programa latino-americano do Wilson Center, dos EUA.

Em 2012, quando começaram as negociações com as Farc, estimava-se que o território destinado ao cultivo de coca era de 78 mil hectares, capazes de produzir 165 toneladas de cocaína. Em 2016, aprovado o acordo, o governo americano calculava haver 188 mil hectares, capazes de produzir 720 toneladas.

Embora não exista uma contagem oficial para 2017, imagina-se que o perímetro pode ter atingido os 230 mil hectares, o que resultaria em 900 toneladas da droga.

As diferenças entre Duque e Petro não param no modo como combater os cultivos. O primeiro não cogita o debate sobre a legalização das drogas, enquanto Petro, com uma visão mais alinhada à de Santos, acredita que é hora de rever as políticas de guerra ao narcotráfico e pensar alternativas, como a experiência uruguaia.

O aumento da produção ilícita e do narcotráfico não está ligado apenas ao fim da fumigação aérea. Com o ocaso dos grandes cartéis (Cali e Medellín) nos anos 1990, o crime organizado colombiano mudou seu modo de atuar.

Em vez de obedecer a estruturas verticais com um "lorde da droga" à frente, agora opera-se em pequenos cartéis, de estrutura horizontal, portanto mais difíceis de rastrear, segundo estudo da ONG Insight Crime, que monitora a violência e o crime organizado na América Latina.

Outra organização, a Fundação Ideias para a Paz, divulgou um estudo no qual diz que o "Estado não esteve preparado para acompanhar essa transição dos modelos de produção e distribuição".

A estratégia de Santos, de estimular a erradicação manual, funciona, mas caminha a passos muito lentos. Em 2015, alcançou 13.445 hectares. No ano seguinte, esse número subiu para 17.642 e, no ano passado, para 20.914 hectares.

Segundo um estudo da ONU, a maior parte da produção se concentra nos departamentos (equivalente a províncias) de Cauca, Nariño e Putumayo, regiões em que o Estado e o Exército ainda não conseguiram se estabelecer devido aos bandos criminosos, segundo a Insight Crime.

A droga que chega ao Brasil vem principalmente dos departamentos de Meta e Guaviare, onde a produção é menor, mas escoa por nossas fronteiras e para a Venezuela.

Apesar da seriedade do tema, esse não aparece como prioritário nos debates nem na campanha eleitoral.

"Santos vem propondo muito timidamente uma mudança no modo de encarar o problema, mas nenhum candidato, a essa altura da campanha, quer se arriscar em tocar num assunto delicado como esse, mas que coloca o lugar da Colômbia na América Latina em risco", diz à reportagem o analista político Juan Gabriel Tokatlian.

Com informações da Folhapress. 

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