Mulheres revelam histórias de assédio: 'Forte sensação de desrespeito', diz Margareth Menezes

Tia Má, Dadá, Tatiana Trad, Monique Evelle, Ágatha Ferreira, Renata Laurentino, Odara Soares, Dayane Oliveira e Fabíola Lopes falam de medo e constrangimento em relatos.

Foto: Reprodução

"Psiu", "Gostosa", "Pego fácil", "Você é incapaz", "Não faz nada direito": o assédio tem várias vozes. Ele pode ser, inclusive, silencioso.

Olhares intimidadores e toques indesejados também configuram o crime, que pode ser de cunho sexual, moral e até mesmo religioso.

Nenhuma mulher está livre de sofrer com o assédio. Confira abaixo alguns relatos que reforçam a necessidade de educar as pessoas para o fato de que assédio não é elogio.

O combate pode ser feito através de denúncias no Disque 180, ou com registro de boletim de ocorrências nas Delegacias de Especiais de Atendimento à Mulher (Deam).

Margareth Menezes, cantora

"Com certeza todas nós, mulheres brasileiras, já sofremos algum tipo de assédio, principalmente assédio sexual. Algum tempo atrás, estava andando na rua e um cara passou e pegou no meu peito. É uma agressão inesperada e a reação que tive foi dar um tapa nele. É uma coisa muito assustadora, é muito ruim a falta de respeito, essa falta de educação básica. Me afetou muito ser assediada naquele momento, ficou aquela forte sensação de desrespeito. A partir desse momento, fiquei mais arisca com relação a esse tipo de coisa. Não permito que toquem em mim sem a minha permissão de maneira alguma".

Dadá, cozinheira

"Comigo aconteceu há muitos anos, com um ginecologista. Ele me colocou deitada, com as pernas abertas para fazer os procedimentos. Na hora de examinar, ele começou a se esfregar em minhas partes íntimas. Fiquei com medo na hora. Quando ele se afastou, me vesti e fui embora correndo. Como que um médico faz isso? É uma falta de respeito total. Hoje a gente fica atenta porque a gente vê exemplos de pais que fazem com crianças. Ele era cliente do meu restaurante e parou de frequentar depois disso. Esse caso mexeu muito comigo, fiquei traumatizada. Hoje, só me consulto com médica mulher, por medo".

Maíra Azevedo - Tia Má, jornalista e humorista

"Eu lembro de quando eu era estagiária. Tem sempre aquela brincadeira perversa, de tentar responsabilizar a pessoa que faz o estágio por todos os erros porque trata aquela pessoa como alguém de menos valia. Eu me lembro que isso me incomodava muito, até que houve uma vez em que eu fui chamada de 'primata', já que eu era estagiária. Eu era a 'base da pirâmide' dentro da empresa, e eu não gostei dessa brincadeira. Quando eu trabalhava em um jornal, as pessoas diziam sempre que eu deveria estar na capa, de uma forma sensual. Eu sempre dizia que, ser garota da capa não tinha problema algum, mas eu estava tentando produzir conteúdo porque eu era tão capaz ou até mais do que a maioria deles que estavam ali".

Tatiana Trad, baixista

"Já passei por várias situações... Que mulher que nunca né? Inclusive tem um episódio marcante onde eu estava no finado Rock in Rio no Aeroclube [antiga casa de shows em Salvador] e um cara tentou me beijar à força, mas eu fui mais rápida e dei um direto [soco] na cara dele (sempre fiz artes marciais, mas essa foi a primeira e única vez que usei como defesa pessoal). Eu bati e comecei a gritar. O cara não acreditou no que tava acontecendo porque o soco entrou forte bem no meio da cara e ele cambaleou. Chamei os seguranças, mas ninguém fez nada. O cara ficou me provocando depois e quem teve que sair do lugar fui eu. Meu irmão estava atrás de mim na hora do soco e ficou de cara [risos]. Esse foi um dos episódios de abuso...passei por outros...Quanto ao assédio verbal, passei por várias situações também”.

Ágatha Ferreira, publicitária

"O cara me deu 'psiu' e me chamou de gostosa. Revirei os olhos, super desconfortável e tentando ignorar. Aparentemente, na cabeça doida dele, o meu revirar de olhos foi um convite pra ele vir até mim e assim ele o fez. Pegou no meu braço e me disse que eu era “Gostosa pra C*". Retribuí o 'elogio' pedindo que ele me soltasse e que guardasse os machismos dele para ele porque a mim nada interessavam. Ele começou a gritar falando que as mulheres de agora não sabem mais nem receber um elogio, que somos todas 'mal amadas' e 'mal comidas'. De primeira fiquei chocada, só olhando ele esbravejar, não consegui nem me mexer e muito menos entender a situação toda".

Monique Evelle, jornalista

"Nos movimentos sociais de Salvador, eu comecei a trabalhar com pais que, aparentemente, tinham discurso e atitudes incoerentes. Eu lembro exatamente do dia que essa pessoa falou que queria se relacionar afetivamente comigo. Eu falei que não. Ele insistia, roubava beijos a força e eu ficava extremamente chateada. Sem contar que ele me disse que conseguia tudo e a qualquer momento, não importasse como. Aí me bateu medo porque achei que ele poderia me abusar [sexualmente]. Falei com minha mãe, ela me aconselhou a me afastar. Foi algo bem complexo".

Renata Laurentino, humorista

"A gente ensaiava para uma peça em um teatro, e aí ele me olhava estranho. Uma vez, depois de um ensaio, eu estava com as meninas usando o banheiro para tirar a maquiagem, e acabei ficando por último. Daí, nesse dia, ele entrou no banheiro e já veio me agarrando. Eu tomei um susto, pedi pra parar e ele dizendo que sempre quis ficar comigo. Ele era alto e bem mais forte que eu, e tentou me beijar. Eu comecei a falar firme com ele, pedindo pra ele me respeitar. Até que ele viu que eu estava brava, me soltou e saiu do banheiro. E aí foi um mix de sensações, eu fiquei chateada, envergonhada, com raiva. Hoje eu não faço mais teatro".

Odara Soares, rapper

"Sou mulher transexual afrolatina e sofro assédio pelo simples fato de existir. Frequentemente, me fazem propostas sexuais, com a maior naturalidade do mundo, como se eu estivesse aqui unicamente pra isso. No ambiente do rap, onde o machismo está enraizado, a maioria dos homens tenta me deslegitimar e anular o meu talento em público, rindo, fazendo piadas, ou me subestimando como pessoa. Uma vez, brincando de free style em uma rodinha de 'conhecidos', o cidadão me mandou chupar o membro dele e depois lavar a louça".

Dayane Oliveira, publicitária

"No ambiente corporativo acontece frequentemente, não só comigo, mas também com colegas. Alguns homens não aceitam a nossa presença no lugar e tentam calar a gente. É sempre uma tentativa de se mostrar mais entendido do assunto, cortando nossa fala. Quando não é assim, acontecem as situações de ficar repetidamente mencionando o quanto você está bonita, de uma forma que dá a entender que isso se sobrepõe à sua inteligência".

Fabíola Lopes, empresária

"No dia que aconteceu eu estava indo ao banco, dentro de um shopping. Eu sou uma mulher grande, tenho o quadril largo e isso acaba chamando atenção. Estava vestida 'comportadamente', quando um senhor que aparentava ter mais de 60 anos pegou no meu braço e disse no meu ouvido: 'gostosa'. Aquela palavra me feriu de uma forma, que só eu sei o que eu senti na hora. Esqueci que ele era um senhor, peguei ele pelo braço e comecei a xingá-lo e pedi respeito. Aí eu chamei o segurança, que me disse que não valia a pena dar queixa porque o shopping não queria dar alarde à situação".

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