Suicídio ou Fuga?

Foto: Reprodução

Se pensa por aí que as causas que levam uma pessoa a tirar a própria vida são ausência de coisas ou motivos para viver. Isso pode apenas ser um agente potencializador, e a ausência de coisas, pessoas e ou, motivos, se constitui a reação, não a causa. Um suicida se configura a vítima e o agressor no mesmo corpo. Um processo de autossabotagem biopsicossocial, que no momento do ato se exclue a reflexão e o pensamento e se potencializa descargas emocionais instintivas que produzem: sentimento , ação e resultado.

Ao longo dos meus vinte anos exercendo a fun√ß√£o da escuta terap√™utica psicanal√≠tica,¬† j√° me deparei com alguns casos de suicidas em potencial. E de forma comum pude constatar que o motivo entre eles n√£o era a aus√™ncia de acesso a n√ļcleos de apoio. Todos tinham a quem recorrer, todos tinham para quem gritar. Lembro-me de um caso em particular que aconteceu no in√≠cio da minha carreira. A paciente chegou ao meu consult√≥rio e vociferou:

-Dr, vou me matar! A vida não faz mais sentido para mim... Ninguém me ama! As pessoas são ingratas, tanto me doei e nada de reconhecimento... Não vejo sentido em minha continuidade!

A interrompi e questionei: - Quem s√£o essas pessoas?

Aí ela falou com mais força ainda...

- Todos! Marido me traiu, filhos não reconhecem os meus esforços. E depois de quase quarenta minutos falando e chorando sem parar;  a interrompi novamente e fiz a seguinte observação: - E como será a sua morte, Já planejou tudo?

Ela descreveu como iria se suicidar: - Irei parar o carro na Ponte do rio Jacuípe e me atirar...

Aí eu continuei perguntando: - E se não der certo e você  apenas ficar tetraplégica?

Ela parou e me olhou com atenção. Pude perceber  nos seus olhos" um brilho diferente. No início da nossa conversa, antes estavam cinzas, opacos, mas então ficaram ternos; tipo aliviados. Constatei ainda que o desabafo e o encontro com a sua DOR a aliviram sobremaneira.

Então falei para ela em tom de psicologia reversa: - Bem, foi um prazer conhecê-la, desejo-te sorte no seu intento.

Ao que ela me respondeu: - Eu n√£o quero me matar mais n√£o!

Estudos comprovam que no cérebro de um suicida o sistema que regula a comunicação do emissor e do receptor GABA fica alterado.

Uma pesquisa publicada no G1, mostra o fen√īmeno da¬† metila√ß√£o que √© uma modifica√ß√£o qu√≠mica do DNA que pode fazer "calar" os genes sem que sua seq√ľ√™ncia mude, e que freq√ľentemente se produz como conseq√ľ√™ncia da exposi√ß√£o a algum fator meio ambiental.

Segundo estudos psicanal√≠ticos nascemos com as puls√Ķes de vida e de morte como duas feras que nascem para correr, lutar se reproduzir e proliferar. Vida e morte, Eros e Tanatus. Todos em algum momento da vida pode pensar em se matar. Os instintos de atra√ß√£o e repuls√£o fazem parte do aparelho ps√≠quico. A pergunta √© qual energia ir√° vencer? Resposta: A que for mais alimentada. A puls√£o de morte se alimenta do cortisol, o horm√īnio do stress, e a puls√£o de vida de ocitocina o horm√īnio do prazer. Na minha opini√£o profissional a maioria das pessoas que cometem o suic√≠dio na verdade n√£o querem MORRER; apenas desejam fugir da DOR.

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